Voltei a correr – por José Amâncio

Com as bênçãos do Senhor do Bonfim, depois de nove meses afastado das pistas, por conta de minha corrida contra o do câncer de boca que me atingiu, voltei a participar de uma prova oficial na semana passada: a tradicional Corrida Sagrada, em Salvador (BA), da qual venho participando sucessivamente desde o ano de 2010.

Ainda não estou totalmente restabelecido do tratamento ao qual me submeti, tendo feito 33 sessões de radioterapia e 5 de quimioterapia. Foram 46 dias de sofrimento e dor pois, sendo na boca, fiquei praticamente impossibilitado de me alimentar, em virtude dos ferimentos na região.

No entanto, com muita fé em Deus e em Todas as Nossas Senhoras, consegui atravessar o período crítico, sem muito me abater e, após 60 dias do término da aplicação dos medicamentos, fiz o exame apropriado (PET/CT) e foi constatado que o tumor foi debelado!

Durante a fase difícil à qual me referi, como a amiga Lucyana Hoisel estava fazendo os 800 km do Caminho de Santiago de Compostela, comemorando seu 50º aniversário, me ocorreu de fazer também o percurso na imaginação! Assim, para cada sessão de radioterapia eu considerava um trecho de uma cidade a outra, de acordo com os pernoites que ela fazia e postava no Instagram. Com isso, a dureza do tratamento foi amenizada. Em minha imaginação, comecei na cidade de Estela, distante 648 Km de Santiago. Foram 46 dias, de 09/05 a 23/06/2017, quando “cheguei” em Santiago!

Essa fase, em que pese o sofrimento físico, não foi a mais difícil e sim, os 60 dias seguintes, que fiquei esperando para fazer o exame para constatar se o tumor tinha sido extinto! É uma espera sofrida demais, pois o medo de o tratamento não ter sido eficaz é terrível! Mas, mesmo com o resultado satisfatório, o sofrimento não terminou! Veio a fase de recuperação, com muita dificuldade para me alimentar, em virtude da falta de saliva, boca seca e amarga, enjoos e também falta de paladar!

Os incômodos já melhoram consideravelmente, mas ainda estão presentes, de modo que correr se torna desconfortável e tenho que alternar com caminhada para poder molhar a boca e produzir saliva.

Além dos agradecimentos a Deus, Todas as Nossas Senhoras e Santa Rita de Cássia, agradeço o apoio incondicional de minha família, especialmente minha esposa Graciene Amâncio e ainda a minha fiel empregada doméstica, Marleide Conceição dos Santos, que se encarregou o tempo todo de preparar minha alimentação.

Não posso deixar de agradecer ao Dr André Leonardo, cirurgião de Cabeça e Pescoço, Dra Eni Devay, oncologist,a e Dra Patrícia Lambert, dentista que se encarregou de fazer as aplicações de laser, após cada sessão de radioterapia, o que possibilitou que minha boca ficasse menos ferida e a todos que de uma forma ou de outra me ajudaram nos momentos difíceis!

O tratamento do câncer é um horror, mas não tem jeito! Uma vez diagnosticado, não há alternativa! No meu caso os médicos me apresentaram duas opções: 1) cirurgia de grande porte, com alta morbidade e muitos dias na UTI; 2) radioterapia e quimioterapia, com extrema agressão na boca, prevendo enorme dificuldade para introduzir alimentos e inclusive possibilidade de ter de usar alimentação por sonda!

Eu perguntei aos médicos se alguém já tinha resistido a esse tratamento e, diante da resposta positiva, optei pelo mesmo. Então, eles me alertaram que não dependia deles, de minha família, de meus amigos, de ninguém, mas sim de mim, de meu esforço e que eu aparentava ter boa saúde, mas não podia esquecer que órgãos vitais (coração, rins, fígado, pâncreas, etc) tinham 73 anos!

Estou bem, à vista do que já estive e tenho fé absoluta de que vou ficar completamente curado. Para essa corrida treinei regularmente e planejava fazer os 6,8 Km em no máximo 60 minutos (fiz em 56 min) alternando corrida e caminhada! No entanto, me senti bem e consegui fazer mais de 80% da prova trotando. A primeira parada foi no posto de hidratação, no 4 km. Muito importante para esse desempenho foi a companhia de alguns amigos, especialmente o casal companheiro de treinos Ismael e Eliana, que me acompanharam o tempo todo. O ponto alto foi a subida da ladeira existente antes de chegar à Colina Sagrada (foto) quando vários amigos se postaram ao meu lado, gritando o meu nome! Foi emocionante!

A vida é assim: estamos bem, mas quando menos esperamos acontece uma tragédia. O importante é não se desesperar, acreditar na providência divina e lutar muito!
Até breve…

ab_amancio_homeJosé Amâncio Neto – Bancário aposentado de Salvador (BA), começou a correr em 2009 para manter a saúde e fazer novos amigos. Além deste blog, é autor do blog Corredor da Terceira Idade. Fale com o José Amâncio:TWITTER ou FACEBOOK

Leia outros textos do blog do Correr não tem idade aqui